Eu morava num lugar que tinha um quintal muito grande, quase uma chácara. Quando minha avó ficou doente, construímos uma pequena casa nos fundos da nossa para podermos cuidar dela. Porem, ela melhorou e picou a mula, deixando-nos com cara de bobos e uma casa vazia. Então minha mãe resolveu alugar em troca de uma graninha.
Era início do plano real, as coisas estavam começando a melhorar para todos. A primeira pessoa que alugou infelizmente faleceu cedo, era uma senhora que sofria de alcolismo. Logo em seguida, alugamos para uma baiana, a Dilma. Era separada do marido e tinha um filho pequeno. Trabalhava de doméstica e estava juntando seu dinheirinho para comprar um lote e voltar para a Bahia. Assisti Dilma trabalhar muito para criar o filho sem ajuda do ex marido. Mas em poucos anos conseguiu o que queria e e se foi. Depois veio a dona Nilza. Ela também era doméstica e tinha o marido doente e afastado do emprego.
Quando chegou, dona Nilza não dormia em casa, só voltava a cada 15 dias. Trabalhava em casa de gente rica o dia todo e era constantemente acordada durante as madrugadas para satisfazer as vontades dos patrões festeiros. Mas ela estava cansada disso, surgia várias propostas para trocar de casa, receber tudo que tinha direito, toda aquela coisa de CLT, folgas aos finais de semana e tal. Dona Nilza partiu para uma melhor. Logo também nos avisou que iria abandonar o aluguel da nossa casa por uma maior e mais confortável. Pude ver várias domésticas fazendo o mesmo.
Hoje em dia ter uma empregada é uma tarefa difícil. Querem ganhar bem, ter direitos, viver bem… assim como qualquer pessoa. Não dependem mais da moradia do emprego, não precisam mais viver num regime quase escravo, vulgo “quase da familia”.
Hoje as meninas do interior vem para as capitais atrás de bons empregos, querem estudar. Estudam. Crescem. Não terminam mais a vida na casa dos outros.
Entendo o drama da Rita Lee. Vai ser difícil encontrar uma mulher para trabalhar com folga a cada 15 dias e dormir no emprego. Talvez seja o momento da classe média alta buscar isso em outro lugar menos desenvolvido né? Quem sabe na Grécia, já pensou?